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ções, estranba que Balbi cahisse em dizer que estavamos atrasados em conhecimentos statisticos!

Nesta parte, a rasão estava, e desgraçadamente continúa ainda a estar hoje, do lado de Balbi. Todos os trabalhos

trabalhos que Villela cita, e outros mais que podéra allegar, são certamente muito recommendaveis; mas estão muito longe do typo statistico, de que nos fornecem modelos a França, a Inglaterra, e outras pações cultas dos nossos dias. Deixemos, porém, este ponto, que nos he agora estranho, e passemos a dar conta de outros reparos mais justificados.

Balbi deu preferencia aos authores não portuguezes, no que diz respeito á situação politica de Portugal nos primeiros seculos da monarquia.— Villela faz ver que será difficultoso encontrar em nação estranha escriptores tão ingenuos como Fernão Lopes, Gomes Eannes de Azurara, Affonso Cerveira, Rui de Pina, etc.

Balbi pretendeu que a lingua portugueza se fixou definitivamente no anno de 1498;— Villela combate esta asserção, e com grande vantagem. ¿Como pode asseverar-se que uma lingua se fixa definitivamente em um determinado anno? Como pode dizer-se que uma lingua está de todo fixada ? O que he certo, he que a lingua portugueza floreceu grandemente, e chegou a um elevado grao de perfeição no seculo 16, e de então para cá tem tido varias alternativas.

No artigo Litteratu a he Balbi prodigo em espalhar elogios de profundidade e vastidão de conhecimentos, a muitos portuguezes do tempo da sua residencia em Portugal —e Villela citalhe, muito a proposito, o dito do Bispo de Viseu: Os louvores da ingenuidade, que concede todavia excepções, honrão mais do que os gabos que mostrão por exaggerados, ou o cego enthusiasmo, ou a pouca intelligencia de quem os .

Acerca das preciosas Biblias do mosteiro de Belem, que hoje estão na Torre do Tombo, diz Balbi: «On y trouve une superbe Bible manuscripte, dont le pape Jules II fit présent au roi Emmanuel, en reconnaissance du premier or des Indes que ce monarque lui avait envoyé. Ce manuscript, dont les miniatures qui l'embellissent passaient dans l'opinion des connaisseurs portugais pour être de Jules Romain, ayant été examiné par les plus habiles peintres de l'Institut de France, a été reconnu appartenir à un siècle antérieur à celui de Raphael, et même à celui de Pietro Perugino. »

Villela nota alguns erros nestas asserções. A embaixada que ElRei D. Manoel mandou a Roma foi recebida por Leão X a 20 de Abril de 1514, em quanto que Julio 2.o tinha fallecido em Fevereiro de 1513; logo, se o presente das Biblias foi mandado em reconhecimento da dadiva d'El Rei D. Manoel, seguese que he impossivel ter sido Julio 2.° quem fez esse presente.

- As miniaturas, emblemas, e allusões dirigidas a El Rei D. Manoel, de que estão enriquecidas as Biblias, forão feitas no reinado deste Monarcha, e não no seculo anterior a Perugino e a Raphael. O 1.o tomo foi acabado no anno de 1495 por Sigismundo de Sigismundis, Ferrariense; o segundo, por Alexandre Verzanus; o terceiro accusa o anno da 1496, sein declaração de nome; o 4.', 5.° e 6.° não têem declaração alguma; o 7.o só declara o anno de 1497; donde conclue Villela que não estava toda acabada no anno de 1495: dando mesmo de barato que o estivesse, į a quem lembraria dar como author da obra a Julio Romano, que nasceu em 1492? Todo o mundo, diz Villela, conhece alli a escola de Pedro Perugino, que foi mestre do immortal Rafael d’Urbino. O typo, o desenho, o colorido, tudo tem a mesma identidade, tudo tem o mesmo cunho daquelle insigne pintor da escola florentina, que nasceu em 1446, e morreu em 1524, tres annos ainda depois da morte do Senhor Rei D. Manoel.

Não cabe nos estreitos limites do nosso trabalho continuar a acompanhar Villela nos reparos que faz a Balbi sobre os artigos Pintura, Esculptura, Lingua, Eloquencia, Litteratura, Theologia, etc. etc. Direi somente que he digno de ser lido o seu opusculo, e que em muitos logares corrige os descuidos, erros, ou faltas em que o aliàs benemerito Balbi cahio; supposto que por vezes he Villela um pouco mais severo do que cumpria, para com um estrangeiro sabio e generoso, que pôz todo o cuidado em reunir noticias interessantes sobre Portugal, e mostrou estar animado do desejo de apresentar de um modo lisongeiro o nosso Portugal aos olhos da Europa culta.

As Observações Criticas são uma abundante fonte de noticias para a Historia Litteraria de Portugal, tanto no texto como em as Notas, e particularmente nas de pag. 61 até 83. Terei occasião de mencionar novamente este opusculo, quando tratar da Critica Litteraria.

Subsidios que podem fornecer para a Alst. Litt. as Vidas, Elogios e Biograpblas de Authores, bem como alguns

Jornaes Litterarios.

São tambem excellentes subsidios para a Historia da Litteratura Portugueza, muitos dos Elogios historicos, recitados em differentes sessões da Academia Real das Sciencias de Lisboa, e se encontrão nas suas Memorias; taes como o de Fr. João de Sousa, por Francisco Mendo Trigoso; o de D. Frei Manuel do Cenaculo, por Trigoso; o de Muller, pelo mesmo; o do Padre Antonio Theodoro de Almeida, por José Maria Dantas Pereira; o de Pedro José de Figueiredo, por Manoel José Maria da Costa e Sá; o de José Corrêa da Serra, pelo mesmo; etc. etc.

No Titulo 6.o da Bibliographia Historica Portugueza, (do sr. Figanière), de pag. 205 a 229 são indicados varios escriptos, consagrados á exposição das vidas e elogios de varões illustres portuguezes. Muitos dos escriptos ahi mencionados são um excellente subsidio para a Historia Litteraria de Portugal.

-Nas Memorias do Conservatorio Real de Lisboa do anno de 1843, encontrão-se Elogios Historicos de alguns Litteratos Portuguezes dos nossos tempos, escriptos pelos Srs. A. Herculano, Antonio Feliciano de Castilho, e Almeida Garrett. He dizer bastante para recommendar esses Elogios! -Outros ahi se encontrão tambem, que lamentamos não poder indicar, por se referirem a personagens exclusivamente politicos; o que sabe fóra do nosso plano.

No anno de 1849 publicou-se em Lisboa um Jornal com o titulo de-0 Bibliophilo, Elencho methodico e bibliognostico

-cujo objecto era expôr um juizo sobre as obras que fossem remettidas á Redacção; apresentar a biographia e necrologia dos homens distinctos nas lettras patrias, artigos de bibliographia portugueza, etc. etc.— Os numeros que sorão publicados são uma boa fonte de informações para a Historia Litteraria de Portugal; e lastima he que não durasse muito tempo uma tão proveitosa publicação periodica. A Introducção que vem á frente do 1.° N.° (Abril de 1849) he interessantissima, por muito bem escripta, e por muito rica de noções bibliographicas, e de Historia Litteraria; sobre dar uma idéa cabal do vasto plano do Bibliophilo, que os Redactores conceberão com perfeito conhecimento de causa.

No Panorama, bem conhecido em todo o Portugal, ha preciosos artigos de Hist. Litt., ricos de instrucção, e primorosamente bem escriptos. De alguns faremos especial menção quando tratarmos da Critica Lilleraria.

Recommendamos igualmente, debaixo deste ponto de vista, a Revista Universal Lisbonense; e temos para nós que não perderá o tempo quem folhear a Revista Litteraria do Porto, a Epoca, a Revista Popular, o Recreio, e outros Periodicos Litterarios portuguezes destes ultimos tempos.

Indicaremos tambem alguns Periodicos portuguezes de mais antiga data, nos quaes se encontrão, aqui e acolá, algumas noticias litterarias; taes são, entre outros, o Investigador Portuguez em Inglaterra; o Observador Lusitano em Paris; o Correio Brasiliense; o Jornal Encyclopedico, para cuja impressão concedeu privilegio a Senhora D. Maria 1." a Felix Antonio Castrioxto; o Chronista, etc.

Conviera talvez ao nosso plano dar neste logar uma noticia muito desenvolvida de certos trabalhos biographicos, relativos aos nossos principaes escriptores. Assim, por exemplo, podéramos substanciar os escriptos seguintes:

Vida do Padre Antonio Vieira, pelo Padre André de Barros.
A mesma....., pelo Padre Francisco da Fonseca.

.
Vida de D. Jeronimo Osorio, por Bernardo da Fonseca.
Vida de Francisco de e Miranda, por D. Gonçalo Cou-

tinho.
Vida de Luiz do Couto, por Julio de Mello e Castro.
Vida de Gabriel Pereira de Castro, por Simão Torrezão
Coelho.

etc, etc, etc.

Parece-nos, porém, mais acertado dar conta desses, e de outros escriptos analogos, quando tratarmos da Critica Litteraria, enlaçando então a parte biographica, relativa aos nossos melho

res Authores, com a exposição doutrinal do merecimento de suas obras, differentes edições d'estas, e questões de critica respectivas.

Uma excepção estabeleceremos ao artigo antecedente, mencionando aqui uma obra estrangeira, relativa ao nosso Camões,

e vem a ser:

MEMOIRS OF THE LIFE AND WRITINGS OF LUIS DE CA

MOENS — By John Adamson, F.S. A.—2 vol. London

1820. Este bello trabalho de um Estrangeiro muito amante do nosso immortal Epico, que o Sr. Garrett caracterísa como um dos mais dignos monumentos que ao nosso Poeta se têem levantado (sendo os outros dous a Edição do Morgado de Matteus, e a Memoria do Bispo de Viseu); este bello trabalho, dizemos, he um perseito modelo de uma historia especial da Litteratura. Contém as Memorias do Sr. Adamson uma noticia biographica de Camões, engenhosamente traçada segundo os diversos escriptos do Poeta, de sorte que he o grande cantor das nossas glorias que tece a sua propria biographia (it has been endeavoured to make the poet as much as possible his own biographer). — Depois da Biographia vem uma lista de todas as producções de Camões; um Catalogo das Traducções dos Lusiadas, com algumas noticias relativas aos Traductores; uma relação das differentes Edições das varias obras de Camões, o mais apurada que o Sr. Adamson pôde formar; e uma analyse dos Lusiadas.

Teremos occasião de voltar a fallar desta obra, quando tratarmos da Critica Litteraría, na qual consagraremos um Capitulo especial ao nosso immortal Epico.

Se houveramos aqui de mencionar os authores estrangeiros que têem escripto acerca de Camões, e dos Lusiadas, encheriamos longas paginas. Só Millié, na sua traducção franceza dos Lusiadas, apresenta uma longa resenha dos escriptos francezes, relativos aquelle assumpto, de Rapin, Adrien Baillet, Voltaire, La Harpe, L'Abbé Delille, M.me de Stael, Lemercier, Gilibert de Merlhiac, Parseval-Grandmaison, Montesquieu.

Aproveitaremos esta occasião para declarar que no segundo. volume desta Obra daremos noticia de alguns escriptos estrangeiros, que tratão da nossa Litteratura, taes como os de Boulerwerk, Sismondi, etc. etc.

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