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ducção das Odes do nosso Francisco Manoel, mas sim pela noticia biographica e litteraria que M. Sane apresenta acerca do illustre poeta portuguez, e pela Introducção sobre a Litteratura Portugueza.

A Noticia sobre Francisco Manoel he escripta com todo o calor da amisade e admiração que o author consagrava ao nosso compatriota, sem a menor quebra da veracidade dos fa

ctos.

A Introducção sobre a Litteratura Portugueza tem por objecto passar em revista os differentes periodos que a nossa lingua percorreu desde a sua origem, e dar um rapido esboço dos principaes caractéres da litteratura portugueza. Não esperemos pois de M. Sané um largo desenvolvimento, nem um exame muito profundo da nossa historia litteraria; em compensação, porém, encontra-lo-hemos muito conhecedor das bellezas dos nossos melhores escriptores, e fino apreciador do merecimento da nossa Litteratura, sobre a qual, e sobre o progressivo desenvolvimento da lingua portugueza lança um olhar penetrante, e quasi sempre seguro.

Os portuguezes que lerem a obra de M. Sané não devem ser demasiadamente severos para com um estrangeiro, que fallava das nossas cousas, e a quem não admira escapar um ou outro erro. Assim, por exemplo, quando na Introducção falla da Torre de Belem, confunde-a com o Archivo, a que nos chamamos Torre do Tombo. Percorrendo o reinado de D. João ii, diz M. Sané: La fortification des places ne lui fut pas étrangère; car Garcia de Resende, attaché à son service, et son historien, nous assure qu'il avait dessiné, sous les yeux du Roi, le plan de la forteresse de Bélem, que le Roi Emmanuel fit construire sur le même modèle, et qui sert encore de Dépôt des Archives, dans le port de Lisbonne.- Este e outros descuidos, bem como o modo errado de escrever os nomes de alguns Portuguezes, devem ser desculpados a um estrangeiro, que aliás dá mostras de ter estudado o assumpto de que se occupa, e pugna apaixonadamente pela gloria das cousas e das Lettras de Portugal.

MEMORIA SOBRE A LITTERATURA PORTUGUEZA, TRADUZIDA DO INGLEZ. Com NOTAS ILLUSTRADORAS DO TEXTO— por

J. G. C. M. (João Guilherme Christiano Muller.)

Em 1808 foi publicado em Londres um Opusculo, que

ti

nha por titulo:— « Extractos em Portuguez e Inglez, com as palavras propriamente accentuadas para facilitar o estudo da Lingua Portugueza.)—

No anno seguinte (1809) appareceu no Quarterley Review do mez de maio, um artigo tendente a mostrar a insufficiencia do Opusculo, e a indicar o modo de apresentar um trabalho mais perfeito e instructivo naquelle genero de escriptos.

A traducção do artigo do Quarterley Review he pois o que constitue a Memoria de Muller, com o accrescentamento de notas suas.

A linguagem da traducção não he muito castigada, e asóra isso ha na Memoria muitos erros typographicos notaveis.

Essencialmente, porém, não deixa este trabalho de ser curioso, e até certo ponto interessante, por isso que o author da noticia de algumas das nossas producções litterarias com o mais fino criterio. Na parte biographica mostra-se o author muito inteirado da vida dos nossos escriptores, nem lhe escapa mencionar as anecdotas, mais ou menos epigrammaticas, que a respeito de cada um delles se contão. O que se sabe de mais notavel ácerca de Sá de Miranda, Ferreira, Caminha, Diogo Bernardes, Castanheda, Barros, Conde da Ericeira, Domingos dos Reis Quita, Francisco Dias Gomes, etc. etc.—he referido pelo author, quasi sempre com muita graça, e por vezes com a mais fina sensibilidade, quando chega o caso de deplorar o infortunio de alguns escriptores nossos.

Supposto que tenhâmos hoje muitos mais elementos para apreciar devidamente a nossa Litteratura, do que tinha em 1809 o escriptor do Quarterley Review, he comtudo certo que ainda encontraremos no seu artigo algumas cousas aproveitaveis, e sobre tudo lucraremos em tomar nota de um certo modo de julgar, que he a seição caracteristica dos Criticos Inglezes.—Quando o author falla do Feliz Independente do Padre Theodoro d’Almeida, julga assim aquella producção litteraria=«Esta obra he « evidentemente producção de um entendimento sobre maneira « abastecido de conhecimentos, e rico de combinações; se por a ventura porém a metade della se tivesse reduzido a bons ser«mões, teria a outra ganhado com esta separação. Nos termos « em que actualmente ella se acha, está a acção submergida en « discursos moraes. »=

Fallando do nosso grande Vieira, diz assim:-- «Nos sermões «de Vieira, um dos homens mais abalisados, acha-se d'envolta «a mais fina rethorica com os mais fantasticos conceitos, que já« mais entrarão no juizo humano. » —

Entre as anecdotas, citaremos a seguinte, relativa a Quita: - «A sua Tragedia de D. Ignez de Castro appareceu, ha annos « a esta parte, na lingua ingleza, n'uma publicação intitulada « Theatro Allemão. O pobre Domingos dos Reis ficaria de certo a surpreso de se achar ali, e ainda mais de encontrar o titulo de « Dom, anteposto a seu nome, que foi justamente como se um « Francez traduzindo Burns, o quizesse exaltar com o titulo de « Mylord.

Veja-se, porém, o modo porque o author aprecía o facto de terem os Arcades admittido Quita como socio:—«Neste tempo a se instituío a Arcadia Portugueza, a fim de restaurar as Bellas «Lettras, e principalmente a Poesia, em um paiz, onde por tanto «tempo, e em tal excesso, havião jazido degeneradas. Faz a maior a honra aos que instituírão esta Sociedade o ser Domingos dos « Reis Quita, não obstante a sua humilde condição, unanimea mente eleito por membro della. Houve todavia pessoas assaz «illiberaes, e invejosas, que se consolárão da inferioridade na«tural de seus talentos, com reflexões satyricas sobre a pobreza «e officio mecanico de Quita, porém sua mofa não o injuriou, enem lhe causou o menor pezar. )

Ainda depois do que escreveu Stockler acerca de Francisco Dias Gomes, como veremos adiante, no Cap. 3.° do Titulo 3.° desta Resenha, tem muito interesse o que o Author inglez diz acerca do nosso philólogo. — « Desta maneira ficou estabelecido « Francisco Dias em uma loja de mercearia, em que os seus taa lentos se tinhão de occupar, durante a sua vida, na pratica das « operações mais communs da Arithmetica ordinaria ; e em que, «a não ser elle dotado de constituição robusta, e de um vigor « extraordinariamente forte, estes e ainda maiores dons da natu« reza, ou de todo succumbirião, ou aliás vegetariam em lasti« mosa esterilidade. Deste modo deu logo o peco a seu genio a nascente, mas nem por isso largou o chão, ainda que sem nunca a medrar a arvore, que aos raios do sol, em um terreno proprio, « devia com viçosa fragrancia e fertilidade acurvar-se com lindas « flores, e sasonadas fructas, e continuou a existir em uma som« bra abafadiça sem poder abrolhar, e ficarão as faculdades de a sua alma á maneira de uma criança, que posto recebesse da « natureza uma vigorosa compleição, desfalece todavia com o es« casso e apoucado alimento da indigencia.»

Em muitos pontos he deficiente o author inglez, e por vezes se torna insoffrivel em alguns juizos litterarios.

Resta agora indicar o subsidio que temos para o conhecimento biographico e litterario do traductor, João Guilherme Christiano Muller; e he o seguinte:

ELOGIO HISTORICO DE JOÃO GUILHERME CHRISTIANO MUL-
LER — por Francisco Manoel Trigoso d'Aragão Morato

Recitado na Assemblea Publica da Academia Real das
Sciencias de 24 de Junho de 1815. (Tom. 4.° das Me-

morias da Academia.) Fallando Trigoso do Ensaio sobre a Litteratura Portugueza, que Muller traduzio do Quarterley Review, e leu na Assembléa da Academia Real das Sciencias de Lisboa de 7 de Julho de 1810,

, diz o seguinte:- «Este Ensaio, que entre muitas reflexões as«sisadas sobre o merecimento dos nossos Classicos, tanto Poetas « como Prosadores, contém cousas muito pouco exactas, e algu«mas demasiadamente pueris, como he a preferencia que dá entre « os poemas portuguezes ao do Vieira Lusitano, não merecia a a honra de ser traduzido por um sabio, que bem estava capaci« tado da imperfeição daquella Obra; mas elle considerou-a deabaixo de outra relação, qual era ministrar aos Portuguezes a « occasião de saberem o conceito, que então se formava em ou«tros paizes cultos da Litteratura da sua Nação; e dar-lhes azo «de corrigirem os juizos de um Escritor estranho, que achou « todavia nossas producções litterarias dignas de estudo. Por isso «o Traductor querendo deixar este campo livre para nelle se a exercitarem os nossos Nacionaes, só cuidou em combater ou «illustrar nas notas aquellas cousas, que acerca da mesma Lit«teratura estrangeira se havião escripto no Ensaio com dema«siada parcialidade, ou precipitação: o que era hir desafiar o a inimigo nos seus mesmos entrincheiramentos, e offerecer-lhe « um novo genero de combate, que elle estava bem longe de es«perar.»

ENSAIO SOBRE A HISTORIA DO GOVERNO E DA LEGISLAÇÃO DE PORTUGAL, PARA SERVIR DE INTRODUCÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO PATR10— por M. A. Coelho da Rocha. — 2.° Edição - Coimbra 1813.

Não pude resistir ao prazer de mencionar esta obra, que não só faz honra ao seu illustre author, mas acredita a Universidade

de Coimbra, de que foi digno Professor, e assignála, com grande distincção, os trabalhos litterarios da presente epocha.

O Ensaio versa sobre assumpto mais vasto do que aquelle que ora nos occupa; no entanto o douto e habil Professor, lançando os grandes traços da nossa verdadeira Historia, não se esqueceu de marcar os progressos da instrucção publica, e he neste particular que offerece alguns subsidios para a Historia da Litteratura, maiormente pelo facto de enlaçar aquelles progressos com o desenvolvimento da civilisação em Portugal.

O author seguio, na composição do Ensaio, a «Historia Juris Civilis Lusitani» de Paschoal José de Mello; mas supprio as ommissões desta obra, e desviou-se das opiniões em que este sabio Jurisconsulto, para se accommodar ás idéas e circumstancias do tempo, e peso da censura sob que escreveu, poz de parte a philosophia, e judiciosa critica, que caracterisão os seus escriptos.

O periodo que decorre desde a fundação da Monarchia Portugueza foi dividido pelo author em tantas epochas, quantas têem sido as mudanças de Dynastias entre nós; e cada uma dessas epochas foi dividida em artigos, nos quaes colligio os factos relativos á organisação social do nosso paiz. Um artigo de cada uma dessas epochas é consagrado á noticia do estado das letras, e da instrucção dos portuguezes,

CAPITULO III.

CONTINUAÇÃO DA RESENHA DOS SUBSIDIOS PARA A HISTORIA

DA LITTERATURA PORTUGUEZA.

DIVERSAS MEMORIAS SOBRE A LITTERATURA SAGRADA DOS Judeos PORTUGUEZES, NOS SECULOS XV A XVIII-por Antonio Ribeiro dos Santos.

Na primeira Memoria diz o author, fallando dos Judeos Portuguezes: =«Em mui grande obrigação lhes estamos pelo muito que concorrêrão para o estabelecimento dos estudos em Portugal, porque em verdade lhes devemos em muita parte os primeiros conhecimentos da Filosofia, da Botanica, da Medicina, da Astronomia, e da Cosmografia; os primeiros rudimentos da Grammatica da Lingua Santa, e quasi todos os estudos da Litteratura Sagrada, que entre nós houve antes do seculo 16, e o que muito contribuío para se espalharem, e adiantarem esses nossos conhe

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