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cido o immortal Pedro Nunes, de cuja vida, empregos e obras, se occupa mui detidamente o sabio Stockler.

O nome de Manoe de Figueiredo, que os sabios estrangeiros contão no numero dos Mathematicos Portuguezes dignos de memoria, não he considerado por Stockler como sendo recommendavel por justificados titulos; mais merecedor julga elle de honrosa duração o nome de André de Avellar, que no anno de 1592 entrou no exercicio de lente da cadeira de Mathematica da Universidade de Coimbra.

Os discipulos mais notaveis de Pedro "ures forão o Infante D. Luiz, filho d'El Rei D: Manoel, e o famoso D. João de Castro, bem como, provavelmente, Frey Nicolao Coelho do Amaral, religioso Trino.

Nos reinados d'El Rei D. Sebastião, e nos dos Filippes, cahírão os estudos das Mathematicas no maior abatimento. No 'reinado do Senhor D. João iv merecem especial menção, nas Mathematicas, o Principe D. Theodosio, o Conde da Ponte e Marquez de Sande Francisco de Mello e Torres, e Leonis de Pina e Mendonça.

O Senhor D. João iv confiou a Luiz Serrão Pimentel, discipulo que fðra do Cosmographo mór do Reino Antonio de Mariz Carneiro a direcção e ensino dos principios elementares da Arithmetica, Geometria e Trigonometria, indispensaveis aos officiaes engenheiros.

Na familia de Pimentel se perpetuou por largos annos o cargo de Cosmographo mór; seus dignos filhos, Manoel Pimentel e Francisco Pimentel, e Manoel de Azevedo Fortes, sustentárão o credito da escola da Engenharia.

Nos collegios dos Jesuitas as Mathematicas estavão reduzidas a pouco mais do que aos conhecimentos puramente elementares, no tempo de El Rei D. João v, e nos primeiros annos do reinado do Senhor D. José, como o provão as obras dos Padres Manoel de Campos, Ignacio Monteiro, Euzebio de Veiga. Outro tanto pode dizer-se das obras astronomicas do douto Padre Antonio da Costa.—José Joaquim Soares de Barros e Vasconcellos, mandado pelo Senhor D. João v estudar aos paizes estrangeiros, patenteára um talento e pericia, que em breve encheu de admiração os Astronomos mais distinctos.

Por Alvará de 19 de Maio de 1759, foi creada a. Aula do Commercio na Capital.

No anno de 1761 estabeleceu o Senhor D. José o Real Col

legio dos Nobres, lançando mão, para o ensino das Mathematicas, de João Angelo Brunelli, e Miguel Antonio Ciera, que havia pouco tinhão voltado da America Meridional, da demarcação dos limites de nossas Possessões n'aquella parte do mundo. Por essa occasião foi tambem mandado vir de Italia o Sr. Miguel Franzini.

=«Mas em quanto estes habeis Professores, diz Stockler, desempenhavão dignamente as intenções d'aquelle Monarcha, o Sr. José Monteiro da Rocha e José Anastacio da Cunha caminhavão a largos passos a pôr-se em estado de mereceremo nome de Geometras. Um e outro fizerão tão patentes os seus talentos, e os progressos que havião feito nas Mathematicas, que quando o Soberano se propoz completar a reforma da Instrucção Publica de todas as classes do Estado, reformando os Estatutos da Universidade de Coimbra, ambos tiverào a honra de ser eleitos por elle, para de concerto com os Srs. Franzini e Ciera, crearem a Faculdade de Mathematica, que então se mandava estabelecer de novo na mesma Universidade.)

Pela Carta de Lei de 5 de Agosto de 1779, foi creada em Lisboa a Academia Real de Marinha, destinada ao ensino de um curso completo de Mathematicas, igualmente adaptado para servir de fundamento commum á navegação e ás architecturas naval, militar, hydraulica e civil; a sciencia das minas e á artilberia.

Em 1782 foi creada a Academia Real dos Guardas-marinhas, reformada depois por Carta Regia de 1796.

Em 1790 a Academia Real de Fortificação, Artilheria e Desenho.

Em 1784 tinha já sido estabelecida uma eschola de pintura e desenho de architectura civil, a cujos alumnos se impoz a obrigação de se instruirem nos principios elementares de Arithmetica e Geometria.

E ultimamente estabeleceu a Senhora D. Maria i a Academia Real das Sciencias, uma das classes da qual he particularmente destinada para as Sciencias exactas.

Em 1803 foi estabelecida na Cidade do Porto a Academia Real de Marinha.

No Capitulo iv daremos conta dos Estabelecimentos Litterarios da epocha actual.

Detivemo-nos com o Ensaio do sabio Stockler, por ser destinado a dar uma noticia do desenvolvimento da Instrucção Publica em Portugal. O assumpto he interessante, e entra no dominio da Historia Litteraria, com quanto não seja especialmente da Historia da Litteratura; mas a esta mesma convem muito o conhecimento do plano, direcção, e progressos dos estudos em geral.

As Notas do Ensaio são ricas de instrucção, e entre outros muitos elementos proveitosos, contém noticias biographicas de summo interesse. -As Notas relativas a Martim Behaim devem ser conferidas com a Memoria de Mendo Trigoso.

Pena foi que o sabio Stockler limitasse o termo do seu Ensaio a epocha do estabelecimento da Acad. R. das Scienc. de Lisboa, e não compozesse depois um segundo livro, no qual continuasse a historia das Mathematicas até ao seu tempo.

Terei occasião de fallar de novo sobre o Ensaio Historico, quando tratarmos da Critica Litteraria, por occasião de mencionar alguns artigos dos Annaes das Sciencias e das Artes.

Fôra grave descuido não mencionar, a proposito do Ensaio Historico, as eruditas Memorias de Antonio Ribeiro dos Santos sobre alguns Mathematicos Portuguezes, e Estrangeiros domiciliarios em Portugal, ou nas Conquistas, que se le po tomo oitavo das Mem. de Litt. Port.-Antonio Ribeiro dos Santos termina as suas noticias com o reinado do Senhor D. João v. --Apresenta nos differentes reinados maior numero de Mathematicos do que Stockler. São muito bem escriptas estas suas Memorias, cheias de erudição, e respirão o mais enthusiastico interesse pelas cousas da. patria; em todo o caso, porém, não podem ter o mesmo cunho de authoridade, que o Ensaio Historico, no que respeita á apreciação scientifica dos escriptos e merecimento dos Mathematicos.

Balbi, no seu Essai Statistique, fallando de Stockler, cujo merecimento exalta, diz que entre os titulos scientificos e litterarios por que he notaves, não menos se torna recommendavel par son savant Essai Historique des Mathématiques en Portugal... qui peut servir de modèle pour la manière à employer pour écrire l'Histoire des Sciences.

A fóra o Ensaio sobre as Mathematicas, cumpre mencionar tambem-Obras de Francisco de Borja Garção Stockler, Barão da Villa da Praia, etc.-1.° vol. sabiu a luz em 1805; 0 2.° em 1826.- Lisboa.

Nas Obras de Stockler ha alguns subsidios para a Historia Litteraria, taes como os Elogios Historicos de D. Thomaz Caetano de Bem, e de Paschoal José de Mello Freire dos Reis.

CAPITULO II.

CONTINUAÇÃO DOS SUBSIDIOS QUE POSSUIMOS PARA A HISTORIA

DA LITTERATURA PORTUGUEZA.

Jam apud omnes in confesso est, notitiam eorum, qui de re aliqua, cujusvis ea generis sit, scripserunt, esse omnino ad illius intellectum necessariam.

MELLI. — Hist. Juris. Civilis Lusit.

PROSEGUIREI na resenha dos subsidios que possuimos para a formação da Historia da Litteratura Portugueza.

N'este Capitulo menciono algumas Memorias interessantes, que se encontrão nas Collecções da Academia Real das Sciencias de Lisboa, —a famosa Bibliotheca Lusitana, -e alguns escriptos modernos, muito recommendaveis, sobre a Historia Litteraria do nosso paiz.

PRIMEIRO ENSAIO SOBRE A HISTORIA LITTERARIA DE PORTUGAL, DESDE A SUA MAIS REMOTA ORIGEM ATÉ O PRESENTE TEMPO, SEGUIDO DE DIFFERENTES OPUSCULOS, QUE SERVEM PARA SUA MAIOR ILLUSTRAÇ O, E OFFERECIDO AOS AMA!'ORES DA LITTERATURA PORTUGUEZA EM TODAS AS NAÇÕES — por Francisco Freire de Carvalho. Lisboa. 1845.

O benemerito Author divide a Historia Litteraria de Portugal em oito periodos. O 1." remonta á idade mais antiga, e chega até a invasão dos Godos na Hespanha, pelos principios do seculo v;-0 2.0 corre desde o seculo v até a invasão dos Sarracenos no anno de 714;-0 3.° desde 714 até 1139;-0 4.° desde 1139 até ao estabelecimento da Universidade Portugueza por ElRei D. Diniz no anno de 1290;--05.° desde 1290 até 1495, ou começo do venturoso reinado d'ElRei D. Manoel; o 6.o desde 1495 até 1580;-0 7.° desde 1580 até 1720, ou fundação da Academia Real de Historia Portugueza;--08.corre desde 1720 até aos nossos dias.

Esta obra, que, ao parecer, he propriamente destinada a demonstrar a sem razão com que alguns Escriptores estrangeiros têem tratado a nação portugueza, taxando-a de ignorante e de atrazada em todos os ramos dos conhecimentos uteis; esta obra, digo, he bastantemente noticiosa, e revela uma grande e bem digerida erudição. Além de muitos e bons elementos para a historia especial da litteratura portugueza, contém tambem curiosas noticias acerca da nossa Universidade, derivadas das Not. Chron. da Univ. de Coimbra, por Francisco Leitão Ferreira—das Mem. mss. de Figueirða —do Comp. Hist. da Univ. de Coimbra, etc. No terreno em que se collocou o Sr. Freire de Carvalho, podemos affoutamente dizer que tratou muito bem os differentes periodos da nossa Historia Litteraria, e com especialidade o que diz respeito ao seculo XVIII.-0 estimavel Author do Ensaio começou a escrever a sua obra nos principios do anno de 1814, como para encher de algum modo a lacuna que existia n'esta importante e rica parte da nossa historia, e que aliàs já tinha sido lamentada pelo insigne Paschoal José de Mello, quando disse: Jure tamen iidem (Lusitani) reprehendendi, quod litterariam gentis suæ historiam, eam que tam egregiam, ac præclaram tam diu in situ, et oblivione jacere patiantur.'—Todavia o Ensaio só sahio a lume no anno de 1845.-O douto Author deu á sua Obra o modesto titulo de Ensaio; e com effeito fôra impossivel a um só bomem, e por em quanto, fazer um trabalho completo sobre a Historia Litteraria. Cabe-lhe, porém, a gloria de ser o primeiro que encetou a ardua tarefa, e tem direito á gratidão nacional por haver proporcionado alguns subsidios a futuros escriptores. (Vej. o excellente juizo critico inserto na Rev. Univ. Lisb. n.° 32 de 29 de Janeiro de 1846).

Ao Primeiro Ensaio uniu o Sr. Francisco Freire de Carvalho, por appendice, uma Memoria, que o Abbade Corrêa da Serra publicou em París no anno de 1804, escripta em francez, e agora vertida em portuguez pelo Sr. Freire de Carvalho, na qual o sabio Abbade dá conta dos progressos das Sciencias e das Bellas Letras em Portugal na metade do seculo XVIII.

Nos dez annos que decorrem de 1760 a 1770 melhorou ElRei D. José a Instrucção Primaria e Secundaria; fundou o Collegio dos Nobres; mandou plantar o magnifico Jardim Botanico de Ajuda, e deu principio a um Gabinete de Historia Natural; estabeleceu a Impressão Regia, com uma fundição de caracteres, que nos libertou em grande parte de comprarmos typos a estrangeiros; creou o Imposto do Subsidio Litterario para sustentação das Escholas.

Seguem-se a estes melhoramentos a reforma da Universidade, e a creação de Estabelecimentos Scientificos na Cidade de Coimbra.

1 Hist. Jur. Civ. Lusit. Cap. 12.° $ 113.o no fim das notas. Esta citação não vem completa no Ensaio.

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