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cabedaes, que mui proveitosamente empregou no seu trabalho sobre os Synonimos. E ainda não está de todo explorada essa mina! Na occasião em que eu lia, ha pouco, a famosa carta de D. Francisco Manoel de Mello a Themudo, encontrei nella um bello exemplo de synonimia, que aos dous philologos escapára, e he o seguinte:

<< Decisão, supposto que em commum sentido pareça o mesamo que Sentença, sốa, a meu juizo, cousa de muito maior dig«nidade. E a razão he, que a sentença parece, que não olha tanto «á qualidade da duvida, quanto ao conceito, que della fez o Juiz, , «que sentenceia; e a decisão não olha tanto ao animo do Juiz, «quanto a qualidade da duvida. Donde se segue, que toda a deacisão he sentença, mas nem toda a sentença he decisão. E ain«da no rigor dos verbos, em sua raiz Latina e Grega, o senten<ciar he huma manifestação do sentido de cada hum, e o deci«dir he desfazer, e cortar a duvida de dous. —Poder-se-hia «assim dizer: Que o'sentenciar cabe somente nas causas duviadosas, e o decidir naquellas, que duramente estão cegas, e obs«tinadas. E como todos os negocios dos homens, não só os em« barace a duvida, que procede da ignorancia da verdade; mas aos áte, e difficulte o vinculo, que se produzio da malicia: claro «fica, quanto mais faz, e fará o que decidir, julgando para si e «para os outros, que o que sentenciar, apenas julgando para «aquelles que julga.»=

Seria curioso apresentar aqui aos Leitores um exemplo do modo porque os dous philologos, de que nos occupamos, tratão um determinado assumpto, quando succede que ambos explicão os mesmos vocabulos; mas levar-me-hia isso muito longe, e este capitulo já vai estirado.

Terminarei, expondo com franqueza o meu humilde parecer ácerca do diverso merecimento dos dous escriptos sobre synonimos.

Se a elegancia da linguagem, o castigado da dicção, e a precisão philosophica me encantão no Ensaio,-encontro no Diccionario artigos de vasta erudição, authorisados com exemplos seguros, e tratados de mão de mestre, taes são, por exemplo, os artigos: Genio, talento, engenho;Estrangeiro, estranho, peregrino, forasteiro; etc. O author do Ensaio tem a indisputavel gloria de ser o primeiro que abrio o caminho; o do Diccionario tem a gloria de haver alargado a esphera dos conhecimentos neste ramo de litteratura, hindo muito adiante do ponto em que parára o primeiro.

Confessarei finalmente que ambos os escriptos são excellentes subsidios para o ramo de Litteratura de que se trata; e que, nesta parte, estamos em bom caminho de progresso.

CAPITULO VIII.

DE DIVERSOS TRABALHOS PAILOLOGICOS SOBRE A LINGUA PORTUGUEZA,

«La philologie est l'anatomie des langues..... elle scrute les idiomes humains, elle en démontre les ressorts, en décrit les procédés.

«L'homme parle, parce qu'il pense; il pense, parce qu'il est homme; la parole est la condition terrestre de la pensée, et il est puéril de les séparer.- La philologie a donc une mission sociale et n'est inférieure à aucune des sciences humaines.»

Assim se exprime M. Lerminier no seu curioso Livro-Aude du Rhin, definindo perfeitamente a philologia, explicando a sua missão, e fazendo sentir o alcance e a elevação desta sciencia.

Reuniremos neste Capitulo os diversos escriptos sobre a Lingua Portugueza, que reputamos puramente philologicos.

- ADAGIOS PORTUGUEZES, REDUZIDOS A LUGARES COMMUNS -pelo Licenciado Antonio Delicado. 1651.

«Os adagios, diz Delicado, são as mais approvadas sentencas, que a experiencia achou nas acções humanas, ditas em breves, e elegantes palavras. Comprehende esta doutrina nam só as cousas moraes, mas todas as artes, e sciencias, e por isso em as mais das nacoens procuraram authores graves pôlas em memoria, e escrever dellas..... Pello que vendo eu, que sendo a lingua Portugueza nào menos abundante destas sentenças, que todas as outras da Europa, me dispuz a colligir de varios exemplos esta pequena obra. Bem sei que pudéra ser o numero muito mayor, mas eu escolhi somente aquelles, que pera a decencia, e utilidade publica me parecerão mais approvados.»

He claro que citamos esta obra debaixo do ponto de vista philologico, e como elemento de estudo da lingua.

METAPHORAS, OU FEIRA DOS ANEXINS ---seu Author Dom Francisco Manoel de Mello. (Obra inedita).

= Livro curioso, diz o Sr. Alexandre Herculano, em que estão lançadas methodicamente as metaphoras, e locuções populares da lingua portugueza, e que seria quasi um manual para os escriptores dramaticos, principalmente do genero comico, que quizessem fazer fallar as suas personagens com fraze conveniente e com as graças e toque proprio da nossa lingua portugueza, e do verdadeiro estilo dramatico.»=

Para que os Leitores, que não tiverem conhecimento da Feira dos Anexins, possão fazer idea aproximada desta curiosa producção de D. Francisco Manoel, langarei aqui alguns trechos dessa curiosa obra:

=«Homem, o entendimento nam he fazenda, que ande em a cabeça de morgado; quem não tem cabeça sempre hé mais caabeçudo.

«Nam repara em cabeçadas.

«Dizem despropositos, e quebram-nos as cabeças com se me«terem na cabeceira do rol dos discretos.»=

=«Eu aqui estou com os braços crusados, pois tenho bra«cejado bastantemente; por nam dar o meu braço a torcer, e «vocês me atam os braços com o empenho: venham quantas meataphoras vierem, todas aceito com os braços abertos.

«O que se pode receаr sam abraços de frade.

aTemos pulha me fecit: elle nam poderia valerse do braço <secular.»=

« vras

=«Vá de metaphora de maons, que lhe heide agora por as amaons, e a boa vontade.

«O senhor, se lhe dam o , toma a mam.
«Muitas vezes deve huma pessoa dar de mam a certas pala-

«Agora metidas as maons na maça, não tem remedio: ham ade se encher maons de papel, mas que seja o que fôr.

«Olhe o manáças botando as maons de fora na valentia: amela a mam no ceyo, que nem tudo o que diz são discrições; atambem manqueja muy bem.

«Senhores, com as maons erguidas lhes peço, não brinqueamos de maons, que ás vezes das maons escapa huma, que be «bofetada sem mam, e a pedra tanto que vay fora da mam, nam atem remedio.»=

=«Em metaphora de Estomago. Confesso-lhes que já estou «bem estomagado.

«Pois a mim com pouco se me embrulha o estomago, e siamilbantes chascos, nam me fazem bom cozimento a elle.»

=«Eu cá estou com hum no ar, como grou, ouvindo-os «a vocês gabar-se, porem não quero dizer nada, que ainda não apondo o faço pegada.

«Nam digo eu! Debaixo dos pés se levantam os callos; heide aarrimar os pés á parede a nam dizer nada.

«Ora diga, meu S.", se o offendi, aqui me tem a seus pés.»

=«Que he isso lá com a Noz? falláram a esta palavra as «Nozes. Nós he cousa atada, disseram as Bolotas. Pois nam, atornáram as Nozes, nada de atadas temos; antes por muy deasenvoltas a todos nos mostramos. Isso he por serem quentes, areplicáram as Bolotas: nam somos nós assim, quem quizer boalota, que trépe: nam somos tão faceis, quer hùas, quer outras. «Valha-as hùa figa, disseram nesta occassiam os Figos, tem tanto ajuizo ambas como huma avelãa. Quem os mette cá com as fruactas seccas? perguntaram as Tamaras. Porque, responderam «elles, vossês nunca viram presentes de figos passados, que vem «do Algarve? Alguns de vossês levam-nos as lampas em tempo ade figos? Nem ainda as fructas verdes pola vindima, pois cheagou o texto das velhas, que quando ha figos, nam ha ami«gos.»

2

Folgaria muito de proseguir nas interessantes citações; mas o meu intento foi unicamente dar uma amostra da natureza da Obra-ás pessoas que ainda a não poderão haver á mão.

1 Panor. 1840. pag. 296.

2 Os Leilores que não podérem haver á mão a Feira dos Anexins, devem recorrer a uma obra de João Baptista de Castro, que tem por titulo: Hora de Recreyo nas ferias de mayores estudos, e oppressão de mayores cuidados. Lis. boa 1750. Abi encontrarão alguns extractos, se bem que em limitado número.

PRIMEIRA PARTE DAS FRASES PORTUGUEZAS, A QUE CORRESPONDEM AS MAIS PURAS E ELEGANTES LATINAS.

SEGUNDA PARTE DOS PRINCIPAES ADAGIOS PORTUGUEZES,
COM SEU LATIM PROVERBIAL CORRESPONDENTE.

Vem no fim da Prosodia de Bento Pereira. Liso

boa— 1661. 1674.

-No fim do Diccionario Exegelico, publicado em 1781, vem uma collecção de adagios, proprios do idioma portuguez. O author anonymo do Diccionario considera os adagios, como as joias mais preciosas, que enriquecem, e fazem mais brilhante o Thesouro da Lingua,

Daremos noticia mais circumstanciada do Diccionario Exegetico no fim deste Capitulo.

Adagios, PROVERBIOS, RIFÀOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA. TIRADOS DOS MELHORES AUTHORES NACIONAES, E RECOPILADOS POR ORDEM ALFABETICA.- Por F. R. J. L. E. L.

- Lisboa 1780.

Com esta epigraphe: La sagesse, et la prudence de chaque Nation consiste en ses Proverbes.

O author desta collecção de Proverbios diz no Prologo: «Tra«balhei por mendigar da Antiguidade quantos pude achar; a «maior parte delles são extrahidos do Vocabulario Portuguez de «D. Rafael Bluteau.—Nelles achão-se algumas palavras , ha alongos annos, arredadas de nós; mas esta mesma antiguidade afaz respeitar, e venerar a singeleza daquelles antigos tempos; «e conhece-se tambem qual era o modo de fallar vulgar dos se«culos anteriores a este.

ANTIDOTO DA LINGUA PORTUGUEZA — por Antonio de Mello da Fonseca. Amsterdão. 1710.

Tres são os assumptos de que o author se occupa na sua obra:

=«He a primeira dissertação sobre a bondade egregia da nossa Lingua, e sobre a grande utilidade, que ella tem recebido das palavras Latinas já nella introduzidas, e consequentemente recebe da introducção continuada de outras, que do Latim recente e justamente usurpamos para a enriquecer e ornar.»=

=«He a segunda dissertação sobre a grande variedade de

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