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serta no 24.° vol. das da Academia das Inscripções, exprime-se d'este modo: « Les Romains, après avoir fait la conquête des «Gaules, y introduisirent aussi l'usage de la langue Latine. «C'était un des principes de la politique de ce peuple d'imposer a aux Nations vaincues, qu'il appellait barbares, l'obligation de « parler sa Langue, après leur avoir imposé celle de lui obéir.

-Opera data est, dit St. Augustin ' ut imperiosa civitas non a solum jugum, verum etiam linguam suam domitis gentibus per « pacem sociatis impeneret.—J'ai dit les Nations barbares, pour « les distinguer de celles qui parlaient la Langue Grecque; cela les-ci conserverent toujours l'usage de leur langue, quoique les « magistrats Romains se fussent fait un devoir, même des temps « de la République, de ne leur répondre dans la même Langue, alors même que ces magistrats entendaient le Grec.—Illud «quoque magna perseverantia custodiebant ne Græcis unquam a nisi Latine responsa darent, quin etiam... por interpretem lo«qui cogebant, non in urbe tantum nostra, se etiam in Græcia « et Asia. Quo scilicet Latinæ vocis honos per omnes gentes ve« nerabilior diffunderetur.»

E a pag. 592 diz: «La splendeur de Rome, l'étendue de son « empire, les actions brillantes des Romains, leurs loix si sages «et si sensées, cet ordre admirable pour la police qui régnait « dans tous les ordres de l'état, ces dépenses immenses, non seu« lement pour la décoration des villes, mais encore pour l'utilité a publique, comme les aqueducs et les grands chemins qui tra« versaient tout l'empire, (poderia accrescentar=e as magnifia cas pontes e outras muitas obras=) tout cela était bien capa« ble de faire impression sur des hommes tels

que

les Gaulois, <propres à sentir et à admirer ce qui était vraiment grand. »

E com effeito, já em tempo de Aulo-Gellio os hispano-romanos consideravão como sua a lingua latina. O famoso author das Noites Atticas refere no Liv. 19, cap. 9, uma anecdota litteraria, que põe na maior evidencia esta verdade.--Um mancebo da Asia, nobre, rico e folgazão, reuniu em um banquete, para festejar os seus annos, os seus amigos e mestres, entre os quaes estava tambem Antonio Juliano, hespanhol de nação, e distincto professor de eloquencia em Roma. Quando cessou o banquete, começárão alguns dos convidados a recitar versos de Anacreonte

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1 De Civitate Dei, 1. 19, c. 1. 2 Valer. Max. I. 11, c. 2, n. 2.

e de Sapho, elegias de poetas contemporaneos, e canções amorosas, que muito deleitarão a assembléa. N'este enlevo, e assim excitados pelo enthusiasmo de tão prasenteiro passatempo, romperão alguns dos jovens gregos da sociedade em motejos a Juliano, chasqueando-o de barbaro e de rustico por haver nascido em Hespanha, e apodando a sua eloquencia com os epithetos de rabida e bulhenta (facundia rabida jurgioque), como destinada a exercitar uma lingua rude, inculta, sem graça, e sem amenidade. Perguntavão-lhe o que pensava elle a respeito de Anacreonte, e de outros poetas gregos, e se por ventura os latinos havião feito versos tão correntes e deleitosos; e a tal ponto apurarão a paciencia do bom do rhetorico, que elle desafogou a sua indignação, acudindo irado pela honra da lingua latina, sua lingua nativa, como se tomasse a defeza da sua religião ou dos proprios lares, dizendo:=Devêra eu dar-me por vencido, e conceder-vos que nos levaes a palma n'este desperdicio das boas artes, por maneira que, assim como nos excedeis na boa disposição dos festejos, e no bem preparado das iguarias, igualmente vos avantajasseis nas poesias e canções. Porém, para que não nos condemneis, isto he, para que não condemneis o nome latino, como se tratasse de alguns rusticos, grosseiros e sem graça, rogo-vos não permittaes, etc. =

=«Tum ille pro Lingua Patria, tanquam pro aris, et focis animo irritato indignabundus: Cedere quidem, inquit, vobis debui, ut in tali asotia artium nos vinceretis, et sicut in voluptatibus cultus, atque victus, ita in cantilenarum quoque multis anteiretis. Sed ne nos, id est nomen latinum, tanquam profecto vastos quosdam et in subditos anaphrodisias condemnetis; permittite mihi, queso, opperire pallio caput, quod in quadum parum pudica orationem Socratem fecisse aiunt, et audite, ac discite, nostros quoque antiquiores, ante eos, quos nominastis, poetas amasios, ac Venereos fuisse. Tum resupinus capite convelato voce admodum quam suavi versus cecinit, etc.)=

« Deste lugar se colige con claridad, diz Aldrete, qual fuese la lengua de España en aquel tiempo. Puês Antonio Juliano defendió por lengua patria de Espa`a la latina, y por tal la tuvieron los griegos, etc. (Liv. 1., cap. 20).»

Este argumento he muito ponderoso, e junto a consideração da necessidade que tinhão os povos de aprender a lingua dos illustres vencedores, quer para chegarem aos cargos, quer para poderem comprehender as determinações do soberano, o

qual só se exprimia em latim, quer para conversarem com os romanos das colonias, e com aquelles a quem os negocios do imperio ou os do commercio atrahião ás provincias; tudo isto habilita a concluir com Bonamy: « il n'est pas plus étonnant « que la langue latine soit devenue, au bout de quatre siècles, la alangue dominante dans les Gaules, que de la voir en usage « dans l'Afrique, et surtout en Espagne.»

Vejâmos agora se a historia nos apresenta exemplos numerosos de nações que olvidarão a sua lingua e adoptarão outra; e se a ethnographia tem descoberto e admitte hoje alguma lei reguladora dessas mudanças, que perfeitamente explique este phenomeno linguistico.

Seguiremos nesta parte o que se lê no « Discurso Prelimipar da Introducção ao Atlas Ethnographico de M. Balbi, pag. 75 a 80.

1.° Os gregos e os romanos fizerão desapparecer os numerosos idiomas que se fallavão na Europa meridional, e em uma parte da Europa central, tornando dominante a lingua latina durante o periodo do poder politico, e esplendor litterario de Roma.

2.° Os arabes fizerão desapparecer de uma grande parte da Asia occidental, da Africa septentrional e oriental, os idiomas dos indigenas, de sorte que o vasto territorio, onde outr'ora se fallou o hebreu, o phenicio, o persico, o syriaco, o chaldeu, o egypcio antigo, o egypcio moderno, e em parte o nubio, se está hoje fallando o arabe.

3. São bem conhecidas as mudanças de idioma operadas pelos europeus na America do Sul e do Norte; devendo até notarse que um breve lapso de tempo basta para transformar os africanos escravos em inglezes, francezes e dinamarquezes, ou em hespanhoes, portuguezes e hollandezes.

4.° Os anglo-saxonios, e outros povos conquistadores que invadírão as ilhas britannicas, fizerão desapparecer de toda a Inglaterra, da maior parte da Escocia, e de mais de um terço da Irlanda, a lingua celtica, a qual foi substituida por uma lingua mesclada, proveniente da fusão dos povos que, em differentes epochas, dominarão n’aquelle archipelago.

5.° Os povos germanicos derão a sua lingua a um grande numero de nações slavas, que estanceavão ao Este e ao Sul do Danubio; e na segunda metade do seculo passado, os dragões hannoverianos forçárão os restos dos vendes de Lunebourg a dar de mão á sua lingua, e a adoptarem o allemão.

6.° Mostra-nos a historia que os visigodos e os alanos perdêrão o nome e a lingua na Hespanha; aos osthrogodos e hérulos succedeu o mesmo na Italia; ao passo que os francos, os borguinhões, os lombardos, e os normandos mudão de lingua na França, na Borgonha, na Lombardia e na Normandia, paizes que aliás subjugão, e aos quaes communicão o seu nome. Os varégues, outro povo germanico, fundão o imperio russo, perdendo todavia a sua lingua, e tornando-se slavos.

Devêramos continuar a longa serie de exemplos que M. Balbi cita depois dos acima referidos, mas não convém alongar esta nossa mesquinha escriptura, e por isso remettemos os leitores para a citada obra, e damo-nos pressa em referir a conclusão que desses factos póde tirar-se.

«Julgamos util multiplicar estes exemplos, diz por fim M. Balbi, porque os factos que acabamos de expor nos parecem sufficientes para o fim a que nos propozémos. Por mais extraordinarios e contradictorios que pareção, nem por isso deixão de ter facil explicação aos olhos do philologo, que quer reflectir nas causas differentes que produzem este phenomeno ethnographico, com todas as anomalias que o acompanhão.»

Qual he pois esse principio de explicação? Ei-lo aqui, nas proprias e originaes palavras de M. Balbi:

«Lorsque deux peuples, et par conséquent deux idiomes, se sont choqués, l'idiome le moins cultivé, le moins littéraire, s'est perdu en grande partie ou entièrement; car ce n'est pas la conquête, la domination, qui introduit et maintient tel idiome dans telle contrée: c'est presque toujours la supériorité relative de l'idiome qui finit par le rendre dominant, soit qu'il appartienne au vainqueur, soit qu'il appartienne au vaincu.)

O author da Refutação não se esqueceu de apresentar esta doutrina de M. Balbi, e com toda a rasão conclue deste modo;

«Fazendo applicação deste principio incontestavel em linguistica aos hespanhoes e portuguezes, não pode duvidar-se que a lingua latina, só pela sua superioridade sobre os dialectos peninsulares, ainda independentemente da influencia religiosa e da legislação, devia a final acabar por absorve-los, e ficar dominando exclusivamente o paiz.»

E em demonstração do muito que erão affeiçoados ás lettras romanas os habitantes das Hespanhas, e para se avaliar a boa vontade com que por elles seria acolhida a lingua latina, fare

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mos menção de dois exemplos que cita Aldrete no cap. 22 da sua obra,=Del origen y principio de la lengua castellana. Seja o primeiro o facto referido por Plinio, liv. 2.°, Epist. 3.: «Nunquam legisti Gaditanum quemdam Titi Livii nomine, gloariaque commotum ad visendum eum ab ultimo terrarum orbe avenisse, statimque ut viderat abiisse ?» — Seja o segundo o facto referido pelo mesmo Plinio, liv. 3., Epist. ad Macrum: «Refe«rebat ipse (Plinius maior) potuisse se, cum procuraret in His«pania, vendere hos Commentarios Laertio Licinio quadringenatibus millibus nummum, et tunc aliquanto pauciores erant. » E com effeito, & poderia acaso succeder que um homem se arrojasse a ir de Cadix a Roma, só para vêr Tito Livio; e que um estrangeiro offerecesse dez mil escudos pelos livros de Plinio Maior, se no tempo em que esses factos forão praticados não houvesse uma decidida paixão pelas lettrăs, e se o idioma e os escriptos dos romanos não fossem estimados nas Hespanhas ?

Não nos contentêmos, porém, com estes testemunhos, e ouçamos a opinião de um homem, que nestas materias gosa de grande conceito, o já citado Denina (Tom. 2. Part. 4. sect. 1. art. 1. pag. 116 e 117): «Il est bien sûr que les Hispaniens avant que les Romains portassent leurs armes sur l'Ebre et le Tage, parlaient une langue peu différente de celle que parlaient les Gaulois et qu'après que les Romains étendirent leurs conquêtes vers l'occident, l'Espagne leur fut soumise de gré ou de force bien avant que César eût conquis les Gaules. Ainsi la langue des conquérans et maîtres fut introduite et établie en Espagne, sous ses premiers successeurs, et à peine un siècle s'était-il écoulé depuis la mort de Cicéron et de César, et un demi-siécle depuis celle de Tite-Live et de Virgile, que les auteurs nés en Espagne étaient estimés autant ou plus même que les Romains et qu'aucun de leurs contemporains nés en Italie. Je dirai que, quoique la préférence qu'on donnait à Sénèque sur Cicéron, à Lucain sur Virgile fût injuste; elle prouve toujours le génie naturel des Espagnols, puisqu'ils se sont si hautement distingués dans un pays où la culture des lettres était porté au plus haut degré, et de l'autre côté cela ne laisse pas lieu de douter, que la langue romaine ne fût dès le temps d'Auguste la langue dominante en Espagne, surtout dans les premières classes des habitans, qui ne tardèrent pas à la rendre commune, même au bas peuple. Aussi Horace nous apprend-t-il en termes bien clairs, que ses ouvrages ainsi que ceux de tous les bons auteurs latins

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