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Phenicios e carthaginezes. — que se diz dos phenicios e carthaginezes tambem não he concludente, porque os negociantes aprendem a lingua dos povos com quem negoceião, e não estes a daquelles. Por certo que taes povos não tiverão tamanho, tão longo, e tão pacifico trato comnosco, qual o que, ha seculos, entretemos com os inglezes... e comtudo, quantas palavras inglezas temos no nosso diccionario?

Alvaro Cordovez e Santo Eulogio. As duas citações de Alvaro de Cordova e de Terreros y Pando são contraproducen

isso que, em vez de provarem que o latim nunca fora vulgar nas Hespanhas, provão o contrario. O segundo, por exemplo, diz que naquella parte das Hespanhas, que ficou debaixo do imperio dos moiros, se tornára vulgar a lingua arabe, esquecida a latina, propria, diz elle, da nação e da religião, como lamenta em suas obras o martyr Santo Eulogio, eleilo arcebispo de To

tem, por

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ledo. 1

Vasconço, catalàes e valencianos, Fuero Jusgo.—He opinião de Mayans y Siscar (Origenes de la lengua española), que a maior parte do vasconco, bem averiguadas as suas raizes, tem origem latina. Os catalães e valencianos fallam a lingua provençal ou limosina, filha igualmente da latina, como a nossa, mais differente na orthographia e pronuncia do que no material das palavras. O Fuero Jusgo tambem prova que o latim fôra vulgar nas Hespanhas, porque este Codigo regeu toda a Hespanha Gothica, e só foi traduzido em vulgar no anno de 1241.

Rasões philologicas.

¿Qual he a rasão particular, ou antes esse privilegio, que, a respeito da introducção do idioma dos romanos, se ?

- Pergunta-se qual foi o privilegio que os romanos tiverão para transmittirem a sua lingua ás Hespanhas... Esse privilegio foi a religião, forão as predicas, e a liturgia christā. Nem he tão raro fazerem-se nas linguas mudanças substanciaes e absolutas, como póde vér-se em Balbi, Introduct. à l'Atlas Ethnogr. du Globe. - He terminante a seguinte passagem de Strabão: Turdetani autem, maxime qui ad Bætim sunt, plane romanos mores assumpserunt, ne sermonis quidem vernaculi memores, ac plerique facti sunt latini, et colonos acceperunt romanos; parumque abest quin omnino romani sint facti.

dc celte république formait une vaste contrée, où se conservait une partie du peuple indigène et quelques restes de meurs et de la langue punique; mais où le gouvernement, les tribunaux, les spectacles, le luxe élaient importés de Rome.»

1 Eheu latini linguam propriam ignorant.

Casos. Todo o argumento tirado dos casos, reduzido a sua expressão verdadeira, consiste em que todas as nossas palavras são indeclinaveis, em quanto que o latim tem um pequeno numero de vocabulos desta natureza. Mas que tem esta circumstancia com a filiação da lingua ? Uma palavra muda acaso de natureza, por ser ou não ser declinavel?

Transposição.—Se o latim he uma lingua transpositiva, e o portuguez uma lingua analoga, nem por isso daqui póde tirar-se argumento contra a sua affinidade. Nós dizemos: Recebi as tuas cartas; e Cicero disse isto mesmo de tres maneiras, pois que em todas as tres fórmas se encontra nas suas obras: Accepi tuas litteras Tuas litteras accepi -- Litteras accepi luas. ¿Por que rasão se ha de negar a filiação da lingua, só porque não pode usar senão de uma forma?

Verbos.- Em quanto á voz activa, não pode pôr-se em duvida que amo, as, ai, amari, amasti, amavit, amavero, is, it, são inteiramente similhantes á conjugação portugueza.—No que toca á voz passiva, os latinos dizião amatus sum ou sui, e nós dizemos como elles —fui ou tenho sido amado. He verdade que para alguns tempos tinhão uma terminação particular passiva, dizendo amor, amabar, eu sou amado, eu era amado; mas tambem dizião amatus sum, eu sou amado, amatus eram, eu era amado. Não he exclusiva da lingua portugueza a significação de coexistencia no estado actual do verbo estar. Os melhores authores dão a stare a significação do auxiliar esse; sto expectans siquid mihi imperent;—stal pectore fixum, -stant lumina flamá, etc. -Tambem o verbo habere se encontra como auxiliar, por exemlo em Cicero: De Cæsare satis dictum habeo.

B. Este ponto he muito bem tratado na «Refutação » mas os leitores poderão consultar com proveito sobre elle, além de outras obras, a Litt. au moyen-âge de M. Villemain, 1.° vol. pag. 90, 9.1 e seguintes).

Adverbios.- Nem todos os adverbios latinos terminão em ter; assim, por exemplo, os latinos dizião juste, pulchre, e não juster, pulchreter. No Leal Conselheiro encontramos similhante por similhantemente; e a terminação adverbial em o ainda hoje he usada, pois que dizemos certo, claro, justo, prompto, por certamente, claramente, justamente, promptamente.-Á termi

nação ter substituiu-se a de mente, ainda que seja de presumir que na sua origem fosse empregado este vocabulo, para designar o estado do espirito e da mente de cada um, com referencia a acção de que se tratava; pois que não pode negar-se que mente seja o ablativo de mens. Encontrão-se innumeros exemplos do emprego desta forma adverbial nos melhores "authores latinos: tu conditâ mente teneto-sensit enim simulatá mente locutam, etc.

Comparativos.-0 numero dos comparativos em or na lingua portugueza ainda he grande, pois temos maior, menor, melhor, peor, superior, inferior, ulterior, exterior, citerior, etc. He porém certo que a nossa lingua não adoptou na generalidade esta forma, e não será máo que os sabios a ampliem, tanto quanto a euphonia o permittir. Os latinos formavão os comparativos dos casos em i, doctus, docti, doctior, e nós não podiamos assim forma-los, porque não adoptámos os casos.—0 ouvido devia resistir a que de sabio se fizesse sabior, de douto, doutior, além de que as vogaes finaes são de difficil pronunciação; por exemplo, o povo diz fadairo em logar de fadario. No latim havia muitos adjectivos que não tinhão nem comparativos, nem superlativos, por exemplos, patrius, legitimus, duplex, claudus, unicus, dispar, arduus, e outros, para os quaes os romanos se servião de magis e maxime ou valde, a fim de formarem os gráos de comparação, o que tambem muitas vezes praticavão com os adjectivos que tinhão comparativos e superlativos.— Povos grosseiros, devião pois adoptar o methodo mais simples, tanto mais quanto lhes era difficil saber quaes adjectivos tinhão comparativos e quaes não.

Superlativos.Os superlativos em issimo não se encontrão nos escriptores do principio do seculo xv; he comtudo de presumir que já no tempo do Sr. D. Affonso iii se usassem, pois que no Livro Velho das Linhagens se diz, fallando-se dos Godinhos, que descendem do nomelissimo sangue dos godos. Mas, pondo de parte estas indagações, ¿que valor tem o argumento de mais moderna ou mais antiga introducção?

Particulas.- Muito haveriamos lucrado em adoptar todas as particulas latinas; mas que idéa podião ligar povos grosseiros a at, sed, quidem, enim, versus, elc., ¿que aliás não têem por si mesmas significação alguma, desacompanhadas das outras palavras, cujo valor não pode ser apreciado senão por um ouvido exercitado?-Se, por exemplo, não adoptárão nunc, porque a nossa lingua não admitte palavras acabadas em c, adoptámos todavia agora por hac hora. — Logo não pode dizer-se que a lingua portugucza engeitou desdenhosamente as particulas latinas.

Terminações augmentativas e diminutivas.— Não podiamos adoptar as terminações dos augmentativos latinos, pela muito simples rasão de que os latinos não tinhão augmentativos. Tomámos porém delles muitas terminações dos diminutivos, e até os proprios diminutivos formula, libello, conventiculo, etc. Crêse que a 'terminação em inho e inha vem do latim illus, a, ud, e assim, que de lupillus fizemos lobinho, de mamilla maminha, de murmurillium murmurinho, etc.

Proverbios, ete. Para que o argumento deduzido dos proverbios portuguezes fosse concludente, fôra mister saber-se que todos os proverbios latinos chegárão até nós; mas o contrario d'isso he que he certo. Os proverbios andão somente na boca do vulgo, e fóra um co::tra-senso julgar dos proverbios latinos por Virgilio, Horacio, ou Tito Livio. Muitos proverbios temos tirados do latim: Anda o carro adiante dos bois, Carrus bovem trahit; na terra dos cegos o torto he rei, inter cæcos regnat strabus, etc. Não era possivel que conservassemos proverbios allusivos a factos particulares dos romanos, ou aos seus usos e costumes civís e religiosos, que nós não adoptámos; e vice-versa não podião os romanos ter os proverbios que alludem á nossa religião, aos nossos santos e ceremonias religiosas, taes como: Para a ressurreição dos Capuchos; Presumpção e agua benta, etc.; Ensinar o padre-nosso ao vigario, etc.;- nem tão pouco podião adoptar os relativos aos nossos jogos. Os rifões, proverbios, e anexins, como dependentes dos usos e habitos populares, são variaveis como elles; e não tendo a vida social dos romanos sido a mesma que a nossa, não he de estranhar que até nós não chegassem muitos dos seus risões.

Artigos.—Se valesse o argumento de que a lingua portugueza não he filha da latina porque não tem artigos, com muito mais rasão se poderia negar ao latim a sua procedencia do grego. A admissão dos artigos na lingua portugueza prova um aperfeiçoamento, mas não destroe a filiação.

(N. B. Supposto que na «Refutação » seja tratada magistralmente esta materia, julgamos todavia conveniente prevenir os leitores de que deve lêr-se o citado M. Villemain na Litt. au moyen-âge, pag. 88 e 89 vol. 1.)

Interjeições.- Á excepção de alguns gritos naturaes, indi

cativos da alegria, da dòr, do temor, todas as mais interjeições são arbitrarias ou de convenção; porque aliás serião similhantes em todas as linguas.

Onomatopéas. — As onomatopéas não são uniformes em todas as linguas. Nós dizemos, por exemplo, truz-iruz o som de bater a porta, os francezes dizem pan-pan; nós designamos por catrapoz o som do galope do cavallo, e elles dizem patapan.

Vocabulos da infancia.-Se ha palavras de convenção, nenhumas o são tanto como estas, porque não são senão um arremedo das palavras usuaes da lingua do paiz, que se estropião de proposito para as tornar de mais facil pronunciação aos meninos. As palavras amo, boca, beijo, bico, teta, mano, etc., citadas como pertencentes á infancia, não são senão palavras geraes e communs da lingua. O que se chamou numerosissima familia reduz-se, quando muito, a uma duzia de vocabulos. (Vej.

longo e espirituoso desenvolvimento deste resumo na «Refutação»).

Vocabulos derivados ou compostos de palavras latinas. — Os latinos tinhão a palavra virtus, mas não tinhão virtuosus, nem virtuose, de sorte que para dizerem: Tu és virtuoso, dizião

-Tu es virtute præditus. Na decadencia da lingua suppriu-se esta falta, fazendo-se de, virtus, virtuosus, e nós adoptámos virtuoso, virtuosamente, desvirtuar. Sendo pois tão legitima esta origem, tão incontestavel, como he possivel negar-lhe a sua procedencia do latim? Poderião citar-se innumeros outros exemplos; basta porém observar que, se os vocabulos são derivados de uma palavra latina, segundo o genio da nossa lingua, não se póde recusar a essa raiz a faculdade de tomar todas as terminações que a nossa lingua lhe

Vocabulos tomados do grego e do celtico.— Admittida a exigencia de se tirarem da lista dos vocabulos latinos aquelles que os romanos tomárão dos gregos, não viria a palavra Deos da latina Deus, por isso que os latinos a tomárão de Theos, ou de Dios, genitivo de Zeys. Ainda aquella exigencia poderia ter logar a respeito das palavras technicas e scientificas, porque taes termos são universaes; mas não pode ser extensiva aos que tomámos immediatamente do latim e como latinos, sem nos informarmos da sua origem. Igual exigencia se apresenta a respeito do celtico, justificando-a com o exemplo da palavra donzel, que pretendem derivar de dum, dom, em vez de domicellus; mas he certo que donzel vem de dono, syncopado de dominus, como pode

possa dar.

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