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TITULO III.

LINGUISTICA.

CAPITULO I.

EXCELLENCIAS DA LINGUA PORTUGUEZA.

Desagradecidos Portuguezes, e desnaturaes são, os que por desculparem sua negligencia calpão a pobreza da lingua.

(D. ANTONIO PınaeIRO.)

PASSAREI a fazer a resenha dos escriptos mais notaveis, que a respeito da nossa lingua têem sido publicados.

Começarei pelo quadro das excellencias, e grandes quilates de superior merecimento da nossa lingua; e desculpe-se a liberdade que tomo de fazer preceder de uma breve exposição doutrinal a resenha—que he propriamente o meu objecto.

¿Quaes são as qualidades que deve ter a linguagem para satisfazer perfeitamente ao seu destino ?

O Chantre Manoel Severim de Faria responde, e muito bem: «Copiosa de palavras, boa de pronunciar, breve no dizer, que escreva o que falla, e apta para todos os estylos.»

¿Dar-se-hão estas qualidades na linguagem portugueza? Sim, responde o mesmo author, e com elle outros muitos, que em breve nomearei.

A copia da nossa lingua revela-se: 1.° nos muitos verbos que significão uma só acção: 2.0 no numero dos nomes que

ha para uma mesma cousa: 3.' na multidão de vocabulos, que nascem de uma só palavra: 4.° nos muitos verbos e nomes, de tal modo expressivos, e peculiares á nossa lingua, que não se encontrão nas outras, nem ainda por circumloquios podem ser bem reproduzidos.

Em quanto á pronunciação, he a lingua portugueza suave; não tem as vehementes aspirações, nem a desagradável aspereza do allemão, e em geral das linguas do norte; he porventura mais grave do que a italiana, sem que todavia deixe de ser harmoniosa e euphónica; he mais amena do que a castelhana, e menos monotona do que a franceza. Um senão desfeia comtudo a nossa lingua, e vem a ser, o multiplicado e inevitavel uso de diphtongos nos finaes das dicções, maiormente dos nasaes.

No que toca á brevidade da lingua portugueza, talvez se possa dizer com Fr. Bernardo de Brito, que entre as mais he a que em menos palavras descobre mores conceito, e a que com menos rodeios, e mais graves termos, no ponto da verdade. Severim de Faria cita em demonstração os seguintes versos, em que o poeta pretendeu pintar a pressa :

Bem qual onda de mar, na secca areia
Se desfaz n'um momento,
Qual leve pensamento,
Que os sentidos de noite senhoreia,
Ou qual a flór, que na manhã se arreia
Toda de esmalte verde,
E logo folha e graça á tarde perde.

Onde, diz elle, em sete regras se descrevem tres comparações com todo o ornamento poetico.

Não podia, neste ponto, escapar á lembrança do douto Severim o sentencioso e breve dizer do grande Sá de Miranda; e com effeito, cita-o com elogio, como era de razão, sem comtudo transcrever um só dos muitos exemplos que podéra apresentar. Eu, porém, não posso resistir á tentação de lançar aqui alguns trechos daquelle famoso poeta-philosopho.

¿Quereis ver um modelo de concisão, e ao mesmo tempo de agradavel singeleza em contar? Lede o Soneto 31:

Farei como fez um innocente,
Um rustico pastor d'entre as manadas,
Que d'agua offereceu por mãos lavadas
A Xerxes, bebeu elle, e santamente
Jurou que não bebéra o presente
Com tal sabor por copas d'ouro obradas.

E na Carta 7.

Bem sabeis vós, senhora, o que se escreve
De dois pintores nobres á porfia,
Em
que

cada hum vencer o outro se atreve.
Fructas pintou hum delles, que de dia
Vinhão as aves comer, outro d’um véu
Pintado fez, que a sua obra escondia.
Vêde quanto a arte pode? não valeu
Alli vista e saber, o véu de diante
Mandava alevantar o que perdeu.
Diz ledo o vencedor (foste bastante
A enganar aves) que victoria a minha
Enganando um pintor tão posto ávante.

¿Quereis admirar uma sublime brevidade de exprimir o pensamento? Lède os seguintes trechos:

Tyrannia cruel, aspera lei,
Que assi quer o que quer, brava opinião,
Abasta, assi me apraz, assi mandei? (Carta 7.")

Os momos, os serões de Portugal
Tão fallados no mundo onde são idos
E as graças temperadas de seu sal? (Carta 6.")

Ó ricos que esta riqueza
Está no contentamento,
Mais tem quem mais a despreza
Não foge o rico avarento
Por mais que suja á pobreza? (Carta 6.")

Olhe cada um por si,
O bem não he como tinha,
Nem se pega tão asinha
O mal pode ser que si. (Egloga 8.“)

Seria um nunca acabar se quizesse transcrever aqui maior numero de exemplos tirados do nosso bom poeta, para demonstrar até que gráo de brevidade pode chegar a expressão da lingua portugueza.

A quarta qualidade que Severim requer nas linguas verilica-se na portugueza, pois que, para me servir das expressões do nosso João de Barros, a primeira e a principal regra da nossa orthographia, he escrever todas as dicções com tantas lellras, com quantas as pronunciamos; e bem sabido he que até os casteThanos pronuncião em muitos casos differentemente do que escrevem, como por exemplo a palavra Badajoz, a qual pronuncião guturalmente Badagoz Huerla, Guerta, etc.

Se a lingua portugueza he apta para todos os estylos, assaz o indicão as diversas obras que n'ella teem sido escriptas, de tão variada natureza, de tão subido primor, como são as producções de Barros, Lucena, Fr. Luiz de Sousa, Vieira, Sá de Miranda, Ferreira, Camões, Diogo Bernardes, Francisco Rodrigues Lobo, sem fallar de outros muitos, entre os quacs fulgurão bastantes talentos dos nossos dias.

Cumpre agora fazer uma ponderação, que poderá ser util ás pessoas que estiverem menos versadas no conhecimento da Litteratura geral, e vem a ser:

0 que acima se diz em louvor da nossa lingua, e o muito que a este respeito escreverão os authores, de que brevemente apresentarei o catalogo, deve ser lido e considerado com a devida reflexão e reserva, por maneira que não venhamos a formar juizo desfavoravel das demais linguas, acreditando, menos avisadamente, que só a nossa possue excellentes qualidades. As linguas, ainda as mais desfavorecidas, são um optimo instrumento de dicção e de estylo, quando esse instrumento he manejado por um escriptor de genio. Se a lingua franceza, no meio dos singulares dotes que a enriquecem, é na verdade monotona... note-se todavia como se torna admiravel quando, por exemplo, M. de Lamartine, em uma das suas « Harmonias poeticas e religiosas » le rossignol, rompe n'estes accentos arrebatadores:

Quand ta voix céleste prélude
Aux silences des belles nuits,
Barde aile de ma solitude,
Tu ne sais pas que je te suis!
Tu ne sais pas que mon oreille,
Suspendue à ta douce voix,
De l'harmonieuse merveille
S'énire long-temps sous les bois!

Tu ne sais pas que mon haleine
Sur mes lèvres n'ose passer,
Que mon pied muet foule à peine
La feuille qu'il craint de froisser!

He breve no dizer a nossa lingua, mas quanto não admiraremos sempre a nervosa concisão da latina? Ubi solitudinem faciunt, pacem appellant Oderint dum metuant.— Non ignara mali miseris succurrere disco. Bene qui latuit, bene vixit, etc. etc.

Temos, e ainda bem, alguns termos que outros povos nos invejão, saudade, bunina, primor, mavioso, etc.; z mas quantos nos faltão dos muitos energicos e quasi intraduziveis de outras linguas ?

Sou obrigado a correr veloz; mas basta este leve reparo para que se evite a exageração no modo de encarar as cousas n'este particular. Estudemos profundamente a nossa lingua, e cada vez comprehenderemos mais o enthusiasmo que inspirou os seguintes versos:

Floreça, falle, cante, oica-se e viva
A portugueza lingua, e lá onde for,
Senhora va de si, soberba e altiva.

mas ao mesmo tempo comprehenderemos a necessidade de não sahir dos verdadeiros limites da admiração.

CAPITULO II.

LOUVORES QUE A LINGUA PORTUGUEZA TEM MERECIDO.

Alabaron... su... graciosa lengua con quien sola la portuguesa puede competir, en ser dulce, y agradable.

(CERVANTES.)

20 CONHECIMENTO dos eximios dotes, e nativos foros da excellencia do nosso idioma será acaso inutil?

¿Será verdade que a ignorancia da gentileza e primores da lingua portugueza he a primeira causa, e a mais substancial, de a haverem deixado em tamanho esquecimento?

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