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eu que nesta razão fundo
a laes prendas premio tal,
vejo a rasão tão cabal
que preciso chego a ver
primeiro havieis de ser
pois não podeis ter igual.»

E neste gosto vai discorrendo em quanto aos demais collegas. Não deixavão o seu credito em mãos alheias.

A pezar de tudo, os Authores do Diccionario da Academia, entendêrão que de tal livro se devia fazer uso para o Diccionario:- 1.o por que os Singulares são os engenhos mais celebres da sua idade; 2. pela abundancia de vozes e phrases familiares que contém a Obra, sendo difficil encontrar taes locuções fóra do estylo jocoserio, que he o dominante naquelles escriptos

Academia dos Anonymos.

MÉMOIRES HISTORIQUES, POLITIQUES ET LITTÉRAIRES, CON

CERNANT LE PORTUGAL.....- par M. le Chevalier d'Oli

veira. 1743. Haya. (Esta obra já está mencionada no Capitulo 3.o do presente vol.)

PROGRESSOS ACADEMICOS DOS ANONYMOS DE LISBOA — 2

vol. 1718. Eis a noticia que o Cavalheiro d'Oliveira dá em quanto aos Academicos Anonymos:

=«Tive a honra de conhecer quasi todos os Srs. Academicos.... e fui amigo de alguns com distincção. Hum delles era Ignacio de Carvalho Souto-Mayor, em cuja casa se executavão as seriosas (sic) Assembléas destes nobres e illustres Litterarios e Poetas, nas quaes concorri muitas vezes sempre com gosto, e sempre com applauzo. Estas funcçoens se fizerão sempre com muita gravidade, e lembro-me que essa se conservou ainda naquellas chamadas de Domingo gordo, em que era sempre Orador o P. Frey Simão de S. Catharina, Religioso do Mosteiro de Bellem, e que pelo estilo das ditas suas Oraçoens, erão mais jocosas que serias Assembléas. Tambem me parece que me lembro dos nomes dos quatro Mestres que lião em differentes materias alternativamente Erão, se me não engano, ou se me não esqueço, o dito Ignacio de Carvalho Souto-Mayor, hoje Academico da Academia Real, o Padre Francisco Leytão Ferreyra, Lourenço Botelho, e hum certo João Baptista, mais conhecido pelo appellido de Doutor Nocturno, que pelo seu proprio nome. Secretario era Hieronimo Godinho de Niza. Todos estes se tinhão em conta de grandes homens, e verdadeyramente era huma conta em que todos os homens os tinhão, porem com suas differenças que eu não sey fazer, ou com suas desigualdades, que elles pode ser que não quizessem confessar. No numero dos Academicos havia Versistas, e havia Poetas. Ainda que nos Progressos se imprimirão as obras mais approvadas, não deixárão de passar algumas que são reprovadas de todos, menos de seus autores. Extinguirão-se estas Assembléas ha muitos annos, empregando-se grande parte dos seus Adjuntos na Real Academia da Historia Portugueza, erigida no presente seculo pelo nosso Augustissimo, e Sapientissimo Monarca ElRey D. João V, Nosso Senhor. Não foi decadencia, foi sublimidade a que succedeo naquella extincção a este Nobilissimo Corpo, pois que concorreo a formar outro, que não só he nobilissimo sem comparação, o mais apurado, e o mais douto de quantas Universidades Academicas se admirão na Europa, o que havemos de provar pela producção de huma quantidade de obras que já vimos, e pela maior parte de outras que impacientemente esperamos. (Tom. 2.° Cap. 12. pag. 373 a 376. »

Academla Instantanea.

Esta Academia foi estabelecida pelo Bispo do Porto, D. Fernando Corrêa de Lacerda, em sua propria casa. Propunhão-se assumptos para discussão, sem estudo antecedente, e desta circumstancia lhe proveio a denominação de Instantanea.

Do instituidor desta Academia diz o author da Descripção da Cidade do Porto o seguinte:=«D. Fernando Correa de Lacerda IV lhe succedeu (a D. Nicolau Monteiro) em 1673. A doçura do seu coração correspondia a da sua eloquencia, em que mereceo geral applauso. As obras, que compoz e se imprimirão, são claro testemunho. As continuas molestias, que padecia o constrangêrão a desistir do Bispado, e a retirar-se no anno de 1683 a huma vida privada, que lhe faltou totalmente no primeiro de septembro de 1685.»=

Não admira que o illustre Prelado instituisse a Academia Instantanea, como acostumado que estava a Sociedades Litterarias, pois que fizera parte da Academia dos Generosos, na qual recitou um Panegyrico, que foi impresso em Amsterdão em 1763, , com o titulo de Oração Panegyrica nos applauzos da sempre Inemoravel victoria do Canal.=

Entre as obras de D. Fernando Correa de Lacerda he uma a Catastrophe de Portugal na Deposição d'El Rei D. Affonso 6.', etc.

O author da Bibliotheca Lusitana faz este elogio a Lacerda:=Foy profundamente versado nas letras Sagradas, e profanas; naturalmente discreto e elegante; insigne cullor da pureza da lingua materna, e tão perito nos preceitos da Oratoria, como da Poetica, etc.

Afóra as Academias particulares, que ficão mencionadas, he mister indicar a dos Solitarios, instituida em Santarem no anno de 1664, a dos Illustrados, a dos Occultos, a dos Insignes, a dos Obsequiosos, etc. etc.

-Juizo sobre a influencia das Academias particulares — pelo Sr. Francisco Freire de Carvalho, no seu Ensaio sobre á Historia Litteraria de Portugal:=« As Academias particulares são talvez mais proveitosas para os progressos da verdadeira sabedoria, do que as Academias publicas, as quaes, em vez de aperfeiçoarem, frequentes vezes estorvam, ou retardam o progresso das Sciencias, como faz ver com evidencia o célebre Brissot na sua obra, intitulada De la vérité, Medit. 5. Todavia não queremos dizer, que aquellas nossas Academias particulares, que no texto mencionamos a pag. 175 e 176, eram modelos de perfeição litteraria, dignos de serem imitados no estado actual dos humanos conhecimentos: basta que attendâmos ao tempo, em que foram instituidas, e ao descahimento do saber e do bom gosto, em que então se achava Portugal, para facilmente nos convencermos, de que os assumptos, que em taes Academias se tratavam e discutiam, e o methodo e a linguagem, que nessas discussões se empregavam, era de necessidade participassem muito sensivelmente da litteraria degeneração, em que existiamos. Isto não obstante, quem poderá negar, que taes associações, muito embora rudes, foram já muito proveitosos ensaios para o que depois se havia de fazer melhor em dias mais desassombrados, e de maior illustração, e critica e bom gosto ? »=Nota 99

Bibliothecas.

Fallando-se de Bibliothecas em Portugal, acode logo ao pensamento o nome illustre do grande Cenaculo. Observa Triguso, no elogio daquelle Prelado, que não se instituio em Portugal Livraria alguma de consideração, no tempo de Cenaculo, em que este não tivesse uma parte muito principal.

A antiga Bibliotheca Regia havia sido destruida pelo terremoto de 1755; mas o Abbade Barbosa, incitado por Cenaculo, offereceu a El-Rei D. José a sua escolhida e rara Livraria, a qual foi depositada no Paço.

Á numerosa Livraria da Real Mesa Censoria foi dado Bibliothecario, e se estabelecerão empregados para guarda e limpeza da mesma, por Aviso de 13 de Maio de 1775. Cenaculo, quando Presidente daquella Estancia, cuidou desvelado na conservação dessa Livraria, a qual constituio depois o primeiro fundo da Bibliotheca Real Publica, creada por Alvará de 29 de Fevereiro de 1796.

A Livraria do Convento de Jesus, de Lisboa, foi enriquecida por Cenaculo com os livros que erão destinados para o Collegio de Coimbra, com os que elle proprio comprára, durando o seu Provincialado, e tambem com a sua Livraria particular, que the doou quando se recolheu ao Bispado de Beja, e com um grandioso presente, que depois lhe fez, de muitos livros e mapnuscriptos raros, entre os quaes se notava um exemplar da Biblia Moguntina.

Em 1797 fez uma rica doação de livros, manuscriptos, mapas, plantas, estampas, desenhos, e medalhas, á Bibliotheca Real Publica de Lisboa, como consta do Padrão que se mandou assentar no Livro da Fazenda da mesma Bibliotheca.

No Paço Episcopal de Beja estabeleceu Cenaculo uma Livraria, propria para os Estudos Ecclesiasticos, a qual orçava por nove mil volumes.

No anno de 1805 fundou Cenaculo a Bibliotheca Publica de Evora, e por Provisão de 21 de Setembro de 1811 fez doação d'ella, pura e perpétua, á Igreja Metropolitana da mesma cidade, dando-İhe Estatutos, e dotando-a de rendas para a sua conservação e augmento. Este generoso donativo continha o seguinte:=«Uma Collecção de bons cincoenta mil volumes, entrando em conta livros da primeira raridade, e grande copia de manuscriptos singulares, e de grande preço; tudo acquisições suas, á excepção de dous mil tomos que achou no Palacio da sua Metropoli, deixados pelo seu antecessor.»—«Uma collecção de muitas pinturas insignes por seus authores, e desempenho da arte; sendo muitas de grande estimação, naturaes e artificiaes.) « Huma numerosa e rica Collecção de medalhas de todos os metaes, Romanas, Portuguezas, e de outras Nações; a qual seria mais copiosa, se não houvesse sido em grande parte roubada pelo exercito inimigo na invasão d’Evora.» -«Hum Cartorio, instituido com dependencia da Bibliotheca, para guarda segura dos documentos e memorias pertencentes á Mitra.» -(Trigoso.)

Afóra tudo isto, brindou alguns Conventos, pessoas particulares, e a sua familia, com ricos presentes de livros e raridades.

Vej. sobre este artigo:

Memorias historicas dos progressos, e restabelecimento das Letras na Ordem Terceira.

Elogios Historicos dos Arcebispos e Bispos, professos na Ordem Terceira. Salgado.

Elogio Historico... de Cenaculo — por Trigoso.

Eis as noticias que Adriano Balbi dava, no seu Essai Statistique, sobre o numero de volumes, que as principacs Bibliothecas de Portugal tinhão no anno de 1822:

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A Descripção Geral de Lisboa, publicada em 1839, pelo Sr. P. P. da Camara, dá as seguintes noticias daquelle anno:

A Bibliotheca Publica de Lisboa contém para cima de 80:000 volumes impressos, 5:457 manuscriptos; e 32:235 medal has antigas de oiro, prata e cobre.

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