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TITULO II.

HISTORIA LITTERARIA.

CAPITULO 1.

O QUE SE ENTENDE POR HISTORIA LITTERARIA.

PRTICIPÍA A HESENHA DOS SUBSIDIOs Que POSSUIMOS PARA A HISTORIA

DA LITTERATURA PORTUGUEZA.

Ad Historiam Litterariam non nihil dilucidandam, illustrandamque progredimur, quæ singulis ad eruditionem aspirantibus tanto magis est necessaria, quanto est turpius, si quis ortum, progressum, incrementa, fata, conditores, et Auctores suæ Artis, ac Scientiæ ignoret.

ZALLWEIN - In Princ. Juris.

Dou principio ao inventario da nossa riqueza litteraria, pelos subsidios que possuimos para a Historia da Litteratura Portugueza.

Vejamos, antes de tudo, o que se entende por Historia Litteraria, a fim de conhecermos perfeitamente os elementos que entrão na formação da Historia da Litteratura Portugueza.

A Historia Litteraria, segundo os authores que da mesma hão tratado, deve ser chronologica, geographica, technologica, biographica, philosophica e critica. Satisfazendo a estas exigencias, he ella um thesouro inapreciavel, por isso que encerra, entre outros, os seguintes elementos:

1.° Noticia da origem, progressos, augmento ou decadencia, e estado actual da Sciencia.

2.° Exposição biographica dos authores, na ordem chronologica e successiva em que apparecêrão, como meio de conhecer o fim para que escrevêrão, a intenção que os animou, as circumstancias diversas e multimodas de familia, educação, patria, periodo historico, eschola, seita, religião, parcialidade politica, as quaes, por haverem influido no seu espirito e coração, tendem a explicá-los, e habilitão para bem avaliar o seu merecimento.

3.° Analyse dos diversos methodos por que a Sciencia tem sido ensinada e tratada; bem como a resenha critica e philosophica dos verdadeiros e mais seguros subsidios para o estudo, que possão servir de guia para indagações e descobrimentos futuros, e preservem os estudiosos de gastar inutilmente o tempo na leitura de producções sem merecimento, ou prejudiciaes.

4.° Noticias das differentes edições dos livros, exame comparativo das mesmas, e juizo critico sobre quaes sejão as melhores.

5.° Historia das Universidades, Academias, Associações e Estabelecimentos Litterarios.

A Historia Litteraria póde abranger a noticia do estado litterario do mundo, ou a de uma nação em particular; bem como póde estender-se a generalidade das Sciencias, ou limitar-se a cada uma de per si. N'este sentido, podemos e devemos ter uma Historia geral Litteraria do nosso paiz; bem como podemos e devemos ter uma Historia especial de Litteratura Portugueza: e he d'esta ultima que nos occupamos n'esta parte do nosso livro.

Em hum livro francez muito estimavel, que tem por titulo Histoire de la Littérature Française=estabelece M. Nisard uma theoria muito engenhosa, para marcar a differença entre a Historia Litteraria, e a Historia da Litteratura.

A Historia Litteraria, começa, por assim dizer, com a nação, com a lingua, e só termina no dia em que a nação desappareceu, e a lingua passou a ser lingua morta.

Por isso mesmo que não tem principio, e que só termina quando a nação e a lingua acabárão, -deve abranger tudo o que se escreveu; vindo a ser uma especie de inventario minucioso e fiel de tudo o que viu a luz, de tudo o que foi lido, hum catalogo critico de todos quantos manejárão a penna, sem que esqueça uma só.

A Historia da Litteratura he muito differente d'aquella; começa no dia em que existe a arte, e cessa no mesmo momento em que esta desappareceu.

¿O que he a arle, em tal assumpto? He a expressão das verdades geraes em uma linguagem definida e determinada. Logo, a Historia da Litteratura he a historia de tudo quanto, no mundo litterario, permanece sempre verdadeiro, sempre vivo, sempre actuando sobre as almas, e fazendo sempre parte do ensino público.

Eis, muito em resumo, a doutrina de M. Nisard; eu, porém,

dando aliàs a maior importancia ás idéas do illustre Litterato, limitar-me-hei a fixar bem determinadamente o sentido em que tomei acima as duas entidades-Historia Litterariae Historia da Litteratura.

Pela primeira entendo a exposição historica de todo o movimento intellectual de uma nação; e pela segunda entendo a historia especial das Humanidades, das Boas Lettras, das Bellas Lettras de um dado paiz. Na primeira entra a historia de todas as Sciencias; na segunda somente a parte litteraria da vida intellectual. įE a Historia da Litteratura deverá, acaso, começar no periodo em que a linguagem adquiriu um certo gráo de perfeição?—He certamente necessario que a lingua se tenha tornado clara, intelligivel, e um tanto definida; mas não creio que seja indispensavel prescrever como ponto de partida um periodo determinado. O historiador deve ter, n'este caso, a mais ampla liberdade de começar desde o instante, em que descobrir luz na intellectualidade de um povo, manifestada pelas producções do espirito, mais ou menos informes.

Entendidas assim as cousas, he obvio ser o meu intento fazer a resenha de todos os subsidios que possuimos, para formar a historia especial da nossa Litteratura, sem me fazer cargo da historia geral litteraria do paiz, á excepção dos casos em que esta tiver uma intima e inseparavel connexão com aquella. Nem tão pouco me demorarei em distinguir periodos; pois que só me propuz a colligir os elementos que existirem, seja qual fôr a epocha do desenvolvimento intellectual a que se refirão.

Devo agora fazer uma advertencia, e vem a ser:

Entre os subsidios que vou colligir para a historia especial da nossa Litteratura, só mencionarei os escriptos meramente biographicos, e noticiosos de factos litterarios; reservando para os capitulos em que tratar da Critica Litteraria, propriamente dita, todos os subsidios, ainda mesmo biographicos, que apresentarem juizos criticos, ou seja sobre a biographia, ou sobre o merecimento dos authores, ou finalmente sobre questões litterarias.

Faço esta advertencia, para acautelar a censura que poderião fazer-me, por não mencionar n’esta parte do meu trabalho alguns escriptos, que essencialmente pertencem a Historia Litteraria.

Posto isto, vou entrar na resenha indicada na inscripção d'este capitulo.

1

Eis os elementos que possuimos para a formação da Historia da Litteratura Portugucza:

EPITOME DE LA HISTORIAS PORTUGUEZAS — por Manoel de Faria e Sousa. Lisboa. Differentes edições. 1628. 1663. 1674.

No Tomo 2.', 4. Parte, Capitulo 18.', que se intitula=De los Escritores Portuguezes=vem um Catalogo de 206 escriptores portuguezes, feito por ordem alphabetica. Como preambulo d'esse trabalho litterario, diz o Author:— «Quisiera escusar-me d'este capitulo, porque sin estudio particular nolo huvieramos de escrivir; son infinitos los Escritores Lusitanos, i con una ponderacion de que hasta veinte años atras no huvo ninguno que publicasse escrito menos que digno de estimacion perpetua en todas facultades. La Poesia tan general, que conocemos, e se han conocido muchas personas que naturalmente hablaron en verso: cada fuente de Portugal, i cada Monte son Hipocrenes i Parnasos: assi en los hombres. I por que las mugeres con igual ingenio i estudio se affamaron siempre entre nosotros, illustrarán esta memoria muchas que illustraron otras. Nombraré los que se me ofrecieren por la precedencia de las letras, la facultad en que escrevieron, i el tiempo, no de todos; sea principio este para los que con mayor memoria se acordaren mejor. Callaré los

que viven, porque si bien son muchos, merecen pocos alabança, i la merecida es suspechosa en quanto se vive: tiempos vendran en que se acuerden dellos más bien cortadas plumas sin rezelo de que el que escrivió ignorante pida lugar entre los cuerdos.»

Exemplo do modo por que se houve Faria e Sousa na sua commemoração dos Escriptores Portuguezes:

-Achiles Stacio, Poesia Latina, en tiệpo del Rey D. Manuel.

Aires Barbosa, Poesia Latina, Don Juan Tercero. -Alonso Giraldez, un Poema en Redondillas de la batalla

del Salado en que se halló, permanece. - Alonso de Albuquerque, commentarios de los hechos en

la Asia. Termina com: -Vasco de Lobeira, el que primero escrivió libros de Ca

vallerias, Don Fernando. N. B. Veja-se adiante o Capitulo 3.', no fim do qual se trata dos Ineditos, e entre esses será mencionado um Catalogo de 823 escriptores portuguezes, que Faria e Sousa compôz.

NOTICIAS DE PORTUGAL. VARIOS Discursos POLITICOSpor Manoel Severim de Faria. Differentes edições. 1624. 1655. 1740. 1791.

Mais de uma vez mencionarei estes escriptos, em quanto a historia da Litteratura, Lingua, e Critica Litteraria.

N'este logar indico as noticias sobre as Universidades de Hespanha, que se encontrão no Discurso 5.", SS 1.° a 4."; o Elogio de Fr. Bernardo de Brito; as vidas de João de Barros, de Diogo do Couto, e de Luiz de Camões. Mas havemos de occupar-nos mais detidamente d'esses Escriptos, que além da exposição biographica contêem observações criticas, quando tratarmos da Critica Litteraria.

Quando fallarmos da Lingua Portugueza, teremos occasião de nos referirmos ao Discurso 2.o, o qual tem por titulo:=Das partes que ha de haver na linguagem para ser perfeita, como a Portugueza as tem todas, e algumas com eminencia d'outras linguas.

Manoel Severim de Faria he um escriptor grave, muito erudito, e tem conceito e authoridade.

CARTAS FAMILIARES — de D. Francisco Manoel de Mello. Centuria 4.* Carta 1.4 ao Doutor Manoel Themudo da Fonseca, escripta em 24 de Agosto de 1650.

Esta preciosa Carta teve por occasião o louvor que D. Francisco Manoel quiz liberalisar a Themudo, pelas suas=Decisões Ecclesiasticas=estampadas em Lisboa no anno de 1650. O author, depois de tecer elogios á obra de Themudo, e de encarecer o beneficio, já provado, de sua doutrina, censura os que só estimão os authores antigos e estrangeiros, e dá-se ao trabalho de demonstrar que não tanto n'este Reino, como nos estranhos, por onde estão repartidos nossos na raes, vemos que deu, e está dando Portugal abalisados authores, que na : Sciencias Divinas e Humanas, em umas e outras faculdades resplandecem.

Permitta-se-nos transcrever aqui um paragrapho d'esta Carta, que ao mesmo tempo revéla no author um nobre enthusiasmo pelas cousas portuguezas, e uma philosophia discreta, que a todos deve ser presente:

«Esta he a razão, porque erradamente os homens, pelo menos desordenadamente, se empregão todos na estimação dos authores antigos, e estrangeiros, desamparando d'ella aos modernos, ou 'naturaes (queixa que já por nós fizérão outros). Eu

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